“Meu metabolismo travou” é uma das frases mais repetidas por quem enfrenta um platô de emagrecimento. Lucas Peralles, especialista em comportamento alimentar e criador do Método LP, expõe que essa frase não está totalmente errada, mas costuma ser mal interpretada. O metabolismo de fato desacelera durante um processo de emagrecimento, só que por um motivo diferente do que a maioria das pessoas imagina.
A literatura científica recente mostra que essa desaceleração, chamada adaptação metabólica, é real, mensurável e proporcional em parte à perda de peso, mas também pode ir além do esperado em alguns casos, especialmente quando a dieta é muito restritiva ou prolongada. Entender essa diferença é essencial para não abandonar o processo no momento errado, nem continuar cometendo os mesmos erros indefinidamente.
O que realmente acontece com o gasto energético?
Quando uma pessoa perde peso, o corpo naturalmente passa a gastar menos energia, porque um corpo menor precisa de menos calorias para se manter. Isso já é esperado e previsível. O problema aparece quando o gasto energético cai mais do que a redução de peso justificaria, um fenômeno documentado em estudos publicados no International Journal of Obesity, especialmente em casos de restrição calórica severa e prolongada.
Segundo Lucas Peralles, esse gasto extra reduzido é o verdadeiro platô. Não é que o corpo parou de responder à dieta, é que ele se tornou mais eficiente em economizar energia, como um mecanismo de proteção. Essa explicação muda a forma como o paciente interpreta a estagnação: não como fracasso pessoal, mas como resposta biológica esperada diante de determinadas estratégias.
Por que restrições prolongadas pioram esse cenário?
Quanto mais longa e intensa a restrição calórica, maior tende a ser essa economia energética adaptativa. O corpo interpreta a escassez prolongada como um sinal de que precisa reduzir gastos “não essenciais”, o que inclui diminuir sutilmente a temperatura corporal, a atividade da tireoide e até movimentos espontâneos do dia a dia, fenômenos estudados por pesquisadores da JAMA Network.

Na opinião de Lucas Peralles, isso justifica por que dietas muito restritivas apresentam bons resultados nas primeiras semanas, mas depois parecem perder a eficácia, mesmo quando a pessoa cumpre todas as recomendações.
Como identificar um platô real versus um erro de execução
Nem toda estagnação é adaptação metabólica. Muitas vezes, o platô é resultado de pequenos desvios que se acumulam: porções que cresceram gradualmente, redução da atividade física espontânea ou avaliação imprecisa da ingestão calórica real. Diferenciar esses cenários é fundamental antes de assumir que o metabolismo “travou”.
Dentre a experiência de Lucas Peralles como especialista em comportamento alimentar, ele alude que antes de mudar a estratégia, é preciso confirmar se o platô é fisiológico ou comportamental. São problemas diferentes, com soluções diferentes. Essa investigação cuidadosa evita decisões precipitadas, como cortar ainda mais calorias, o que, paradoxalmente, tende a agravar a adaptação metabólica em vez de resolvê-la.
O que fazer diante de um platô real?
Quando a adaptação metabólica é confirmada, a resposta não costuma ser reduzir ainda mais as calorias, e sim o oposto: reintroduzir gradualmente energia à dieta, priorizar o ganho ou a manutenção de massa muscular por meio do treino de força e permitir que o metabolismo se estabilize antes de retomar um novo déficit calórico. Nessa linha de raciocínio, Lucas Peralles indica que reduzir ainda mais a comida quando o corpo já está em modo de economia só reforça esse estado. Muitas vezes, comer um pouco mais, de forma estratégica, é o que destrava o processo.
Compreender a adaptação metabólica com precisão evita dois erros comuns: desistir do processo por acreditar que o corpo “não responde mais”, ou insistir em restrições cada vez maiores que pioram a própria adaptação. O equilíbrio está em reconhecer os sinais do corpo e ajustar a estratégia com base neles.
Considerando todos esses fatores, o metabolismo não é um vilão nem um aliado fixo; é um sistema que se adapta ao contexto em que é colocado. Entender essa lógica é o que separa quem interrompe o processo no meio do caminho de quem consegue sustentar resultados de recomposição corporal a longo prazo.