O metabolismo desacelera mesmo, mas não pela razão que você imagina. Entenda, com Lucas Peralles

Diego Rodríguez Velázquez
Lucas Peralles

“Meu metabolismo travou” é uma das frases mais repetidas por quem enfrenta um platô de emagrecimento. Lucas Peralles, especialista em comportamento alimentar e criador do Método LP, expõe que essa frase não está totalmente errada, mas costuma ser mal interpretada. O metabolismo de fato desacelera durante um processo de emagrecimento, só que por um motivo diferente do que a maioria das pessoas imagina.

A literatura científica recente mostra que essa desaceleração, chamada adaptação metabólica, é real, mensurável e proporcional em parte à perda de peso, mas também pode ir além do esperado em alguns casos, especialmente quando a dieta é muito restritiva ou prolongada. Entender essa diferença é essencial para não abandonar o processo no momento errado, nem continuar cometendo os mesmos erros indefinidamente.

O que realmente acontece com o gasto energético?

Quando uma pessoa perde peso, o corpo naturalmente passa a gastar menos energia, porque um corpo menor precisa de menos calorias para se manter. Isso já é esperado e previsível. O problema aparece quando o gasto energético cai mais do que a redução de peso justificaria, um fenômeno documentado em estudos publicados no International Journal of Obesity, especialmente em casos de restrição calórica severa e prolongada.

Segundo Lucas Peralles, esse gasto extra reduzido é o verdadeiro platô. Não é que o corpo parou de responder à dieta, é que ele se tornou mais eficiente em economizar energia, como um mecanismo de proteção. Essa explicação muda a forma como o paciente interpreta a estagnação: não como fracasso pessoal, mas como resposta biológica esperada diante de determinadas estratégias.

Por que restrições prolongadas pioram esse cenário?

Quanto mais longa e intensa a restrição calórica, maior tende a ser essa economia energética adaptativa. O corpo interpreta a escassez prolongada como um sinal de que precisa reduzir gastos “não essenciais”, o que inclui diminuir sutilmente a temperatura corporal, a atividade da tireoide e até movimentos espontâneos do dia a dia, fenômenos estudados por pesquisadores da JAMA Network.

Lucas Peralles
Lucas Peralles

Na opinião de Lucas Peralles, isso justifica por que dietas muito restritivas apresentam bons resultados nas primeiras semanas, mas depois parecem perder a eficácia, mesmo quando a pessoa cumpre todas as recomendações. 

Como identificar um platô real versus um erro de execução

Nem toda estagnação é adaptação metabólica. Muitas vezes, o platô é resultado de pequenos desvios que se acumulam: porções que cresceram gradualmente, redução da atividade física espontânea ou avaliação imprecisa da ingestão calórica real. Diferenciar esses cenários é fundamental antes de assumir que o metabolismo “travou”.

Dentre a experiência de Lucas Peralles como especialista em comportamento alimentar, ele alude que antes de mudar a estratégia, é preciso confirmar se o platô é fisiológico ou comportamental. São problemas diferentes, com soluções diferentes. Essa investigação cuidadosa evita decisões precipitadas, como cortar ainda mais calorias, o que, paradoxalmente, tende a agravar a adaptação metabólica em vez de resolvê-la.

O que fazer diante de um platô real?

Quando a adaptação metabólica é confirmada, a resposta não costuma ser reduzir ainda mais as calorias, e sim o oposto: reintroduzir gradualmente energia à dieta, priorizar o ganho ou a manutenção de massa muscular por meio do treino de força e permitir que o metabolismo se estabilize antes de retomar um novo déficit calórico. Nessa linha de raciocínio, Lucas Peralles indica que reduzir ainda mais a comida quando o corpo já está em modo de economia só reforça esse estado. Muitas vezes, comer um pouco mais, de forma estratégica, é o que destrava o processo.

Compreender a adaptação metabólica com precisão evita dois erros comuns: desistir do processo por acreditar que o corpo “não responde mais”, ou insistir em restrições cada vez maiores que pioram a própria adaptação. O equilíbrio está em reconhecer os sinais do corpo e ajustar a estratégia com base neles.

Considerando todos esses fatores, o metabolismo não é um vilão nem um aliado fixo; é um sistema que se adapta ao contexto em que é colocado. Entender essa lógica é o que separa quem interrompe o processo no meio do caminho de quem consegue sustentar resultados de recomposição corporal a longo prazo.

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